Putin Defende Brics Como Força Multipolar E Reforça Proposta De Desdolarização Durante Cúpula No Rio

Durante a 17ª Reunião de Cúpula do Brics, realizada neste domingo (6) no Rio de Janeiro, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, enviou uma mensagem por vídeo na qual destacou a crescente relevância geopolítica do bloco de países emergentes. Segundo ele, o Brics se tornou uma das principais organizações globais, com influência política, econômica e tecnológica em expansão.

“A autoridade do Brics cresce a cada ano. Nossa voz está sendo ouvida em alto e bom som no cenário internacional”, afirmou o líder russo.

Putin aproveitou a ocasião para reafirmar a tese de que a ordem mundial unipolar, historicamente concentrada nos Estados Unidos, está em declínio. Segundo ele, o mundo caminha para uma configuração multipolar mais justa, em que os mercados emergentes e os países em desenvolvimento assumem protagonismo.

“O modelo de globalização liberal está se tornando obsoleto. O centro da atividade econômica está se deslocando, impulsionando uma onda de crescimento, especialmente nos países do Brics”, disse.

Desdolarização em foco

Um dos pontos centrais da fala de Putin foi a desdolarização do comércio internacional. Ele voltou a defender a criação de um sistema independente de liquidação e depósito dentro da plataforma do Brics, que utilize moedas locais em vez do dólar.

Segundo ele, 90% das transações internacionais da Rússia com outros países do bloco em 2024 foram realizadas com o rublo e moedas nacionais dos parceiros.

“A tendência é clara. O uso de moedas locais torna as transações mais rápidas, eficientes e seguras”, reforçou Putin.

De acordo com um comunicado oficial dos ministros das Finanças do Brics, há avanços na criação de um sistema de pagamentos baseado em moedas locais, embora os detalhes ainda não tenham sido divulgados.

Expansão e equilíbrio global

Putin também elogiou o trabalho do Brasil na presidência do Brics e agradeceu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo empenho em dar continuidade a propostas apresentadas na cúpula anterior, realizada na Rússia em 2024.

Desde 2023, o Brics passou de cinco para 11 países membros permanentes e conta atualmente com dez países parceiros. A expansão foi um dos desafios da presidência brasileira, que busca consolidar o bloco como uma alternativa à atual arquitetura global de poder.

A professora Ana Garcia, pesquisadora do Brics Policy Center, ressalta que o bloco hoje atua como um instrumento de contrapeso ao poder das potências ocidentais, principalmente no campo monetário e financeiro.

“A Rússia tem usado o Brics para expandir sua influência e propor mecanismos alternativos. O bloco contribui para equilibrar um sistema global ainda fortemente controlado por instituições como o FMI e o Conselho de Segurança da ONU”, afirma Ana.

Segundo ela, a distribuição econômica já é mais equitativa, mas ainda falta refletir isso nas instituições internacionais, cuja estrutura permanece defasada.

Com a recente ampliação, o Brics agora reúne 11 países membros permanentes:

  • Brasil
  • Rússia
  • Índia
  • China
  • África do Sul
  • Irã
  • Arábia Saudita
  • Egito
  • Etiópia
  • Emirados Árabes Unidos
  • Indonésia

Além disso, conta com 10 países parceiros: Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Tailândia, Cuba, Uganda, Malásia, Nigéria, Vietnã e Uzbequistão.

Juntos, os países do Brics representam:

  • 39% do PIB mundial
  • 48,5% da população do planeta
  • 23% do comércio global

Em 2024, os membros do Brics foram responsáveis por 36% das exportações brasileiras e por 34% das importações.

Putin não participou presencialmente da cúpula por conta do mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), devido a acusações de crimes de guerra na Ucrânia — o que o Kremlin nega. Como o Brasil é signatário do TPI, havia risco de que a Justiça brasileira fosse obrigada a executar o mandado, caso ele estivesse presente fisicamente.