Câncer Colorretal: Sinais, Riscos E Por Que Crescem Os Casos

Por Celine de Souza*

A morte da cantora Preta Gil, aos 50 anos, vítima de um câncer colorretal diagnosticado em 2023, reacendeu o debate sobre um dos tipos de tumor mais comuns e letais do mundo e que, mesmo assim, ainda é pouco discutido fora do ambiente médico.

O câncer colorretal, que afeta o intestino grosso e o reto, ocupa hoje o terceiro lugar entre os mais incidentes no planeta. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), é também o segundo mais letal tanto entre homens quanto mulheres no Brasil. A estimativa é de 45.630 novos casos por ano no triênio 2023–2025 — sendo 21.970 em homens e 23.660 em mulheres. Apesar da alta incidência, os sintomas muitas vezes são ignorados ou confundidos com problemas gastrointestinais comuns, o que contribui para diagnósticos tardios e maiores taxas de mortalidade.

Um relatório da Sociedade Americana de Câncer, publicado em 2023, aponta um dado preocupante: nos Estados Unidos, 20% dos diagnósticos em 2019 ocorreram em pessoas com menos de 55 anos  o dobro do registrado em 1995. O estudo também identificou um crescimento anual de 3% nos casos avançados entre pacientes com menos de 50 anos. Somente em 2023, estima-se que 19,5 mil jovens americanos tenham recebido o diagnóstico, com 3,7 mil mortes registradas. A tendência já se repete em países europeus, como o Reino Unido.

Para o oncologista Bruno Protásio, da rede Oncoclínicas, o câncer colorretal é silencioso e de difícil detecção precoce. “Ele pode ser assintomático nas fases iniciais, o que dificulta o diagnóstico precoce. Os sintomas mais comuns incluem sangramento nas fezes, alterações persistentes no hábito intestinal e perda de peso inexplicada”, explica.

O estilo de vida moderno tem influência direta nesse cenário. Sedentarismo, obesidade, consumo excessivo de alimentos ultraprocessados e carnes embutidas são alguns dos principais fatores de risco. “Esses hábitos têm se iniciado cada vez mais cedo, o que explica o aumento de casos entre jovens adultos”, aponta o especialista.

A principal ferramenta de prevenção e rastreamento continua sendo a colonoscopia — exame que permite identificar e remover pólipos antes que evoluam para câncer. “A recomendação é iniciar o rastreamento aos 45 anos, mas quem tem histórico familiar pode precisar começar antes”, alerta Protásio.

Apesar da eficácia, o exame ainda é evitado por medo ou constrangimento. “É um procedimento simples, feito com sedação, e que pode salvar vidas. Precisamos falar sobre isso com naturalidade para quebrar esse tabu e ampliar o acesso”, defende o médico.

Mesmo com tratamento, o câncer colorretal pode retornar. “A chance de recidiva depende de vários fatores, como o estágio inicial do diagnóstico e o comportamento biológico do tumor. O acompanhamento contínuo é essencial”, afirma.

Preta Gil enfrentou a doença por dois anos. Apesar do acesso a tratamentos avançados nos Estados Unidos — incluindo terapias ainda indisponíveis no Brasil — o câncer evoluiu de forma agressiva. “Existem casos com progressão rápida e resposta limitada aos protocolos atuais, especialmente quando o diagnóstico é tardio”, observa Protásio.

Nos últimos anos, a oncologia tem avançado significativamente no tratamento do câncer colorretal. “Hoje contamos com imunoterapia, terapias-alvo e testes genéticos que permitem personalizar o tratamento conforme o perfil de cada tumor. Isso melhora os resultados e aumenta as chances de controle da doença”, explica o oncologista.

Embora esses recursos ofereçam novas possibilidades, especialistas reforçam que a prevenção e o diagnóstico precoce seguem sendo as estratégias mais eficazes na luta contra o câncer colorretal.

*sob supervisão do jornalista Thiago Conceição.