Por Melissa Carlos*
O encontro de aproximadamente três horas entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, ocorrido na última quinta-feira (07), marca um momento de intensa movimentação diplomática entre as duas maiores potências das Américas. A reunião tentou equilibrar uma surpreendente sintonia pessoal com pautas de comércio, segurança e geopolítica que devem ditar o ritmo da relação nos próximos anos. O Taktá consultou o professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Sidney Leite, para mapear as expectativas sobre o futuro da parceria.
Surpreendendo os presentes na coletiva de imprensa desta quinta-feira, o presidente Lula descreveu o relacionamento com Trump como “amor à primeira vista” para definir a “química” imediata entre os dois. Para o analista Sidney Leite, no entanto, essa descrição soa como um movimento calculado para desarmar críticas sobre um possível isolamento diplomático do Brasil. Ele alerta que o futuro da relação depende da superação do histórico de “pragmatismo agressivo” de Trump. Pois bem, o presidente estadunidense adota tal comportamento pragmático em seus diálogos internacionais para o bem de sua doutrina “América em Primeiro Lugar”. Desde seu primeiro mandato em 2017, utiliza este lema para justificar sua prioridade com os interesses nacionais dos Estados Unidos em detrimento de alianças ou diplomacias pessoais.
Interesses eleitorais e tarifas
Sobre a natureza do encontro de quinta-feira, o professor é enfático: “O meu viés é crítico, pois considero que a reunião atendeu muito mais a questões eleitorais do que aos interesses substanciais”.
O teste imediato para o futuro tem a ver com a proposta feita por Lula no recente diálogo de três horas. O presidente brasileiro sugeriu um prazo de 30 dias para que equipes técnicas apresentem meios de resolução sobre as divergências tarifárias. Sidney Leite vê esse prazo com ceticismo, classificando-o como um “paliativo eleitoral”. Segundo ele, a estratégia é acalmar o mercado e o agronegócio, enquanto os conflitos reais, como as sobretaxas que ultrapassam 40% em produtos brasileiros, são adiados para um momento em que o desgaste político seja menor.
Outro ponto crucial para os próximos anos é o setor de minerais críticos e terras raras, no qual o Brasil detém a segunda maior reserva mundial. Lula condicionou a abertura para investimentos americanos à preservação da soberania e à garantia de transferência de tecnologia. O risco de o Brasil se manter apenas como exportador de matéria-prima, no entanto, é alto caso não haja mecanismos de controle rígidos. Nessa situação, a autonomia nacional pode ser comprometida por um “sucesso diplomático” momentâneo.
Na área de segurança pública, a expectativa gira em torno da criação de um grupo de trabalho global contra o crime organizado. Lula foi assertivo ao apontar que armas que alimentam a violência no Brasil saem dos EUA. O professor interpreta essa postura como uma estratégia de contra-ataque. “Lula tenta dividir a responsabilidade da segurança pública, um tema em que sua aprovação é baixa, com Washington”, explica.
O jogo geopolítico:
O presidente Lula utilizou, ainda, a competição dos Estados Unidos com a China como uma ferramenta de convencimento. O objetivo por trás da estratégia é atrair o interesse americano por infraestrutura. Para Sidney Leite, a tática é de “ciúme geopolítico”: o perigo é que o governo americano imponha condições para investir no Brasil, pedindo a exclusão de tecnologias concorrentes, como o 5G chinês. A decisão poderia colocar em xeque a nossa liberdade de escolha tecnológica.
Sobre a liderança regional, o Brasil tenta retomar seu papel de mediador em Cuba e na Venezuela. O professor ressalta, no entanto, que a recente operação militar dos EUA demonstra que Washington não hesita em agir unilateralmente. (Em 3 de janeiro de 2026, o governo de Donald Trump autorizou uma incursão militar que resultou na captura do ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.) Para o especialista, a expectativa de que os EUA aceitem o Brasil como líder regional é incerta e “é testada quando o governo prioriza o ‘aperto de mão’ fotogênico em detrimento de garantias sólidas contra influências externas no processo eleitoral de 2026″.
Dessa forma, o tema da soberania e da não interferência política será o teste de fogo para a relação até as eleições nacionais. Na coletiva de imprensa pós encontro diplomático, Lula afirmou crer que Trump não interferirá no processo. O professor discorre sobre o assunto com cautela, no entanto. Ao time Taktá, Leite relembra um histórico de intervenções entre os países, como a Operação Brother Sam em 1964: na época, os EUA deflagraram uma operação militar para apoiar o golpe de estado no Brasil. O país enviou uma frota naval para a costa brasileira para garantir que, caso houvesse resistência ao golpe, os militares teriam apoio imediato.
Historicamente, a relação entre os dois países variou entre tentativas de domínio e parcerias estratégicas. Sobre isso, o docente cita, ainda, uma conferência realizada em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial: Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt, em Natal (RN), acertaram que o Brasil enviaria tropas para a guerra e permitiria bases americanas no Nordeste em troca de financiamento para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), marco da nossa industrialização.
O especialista questiona se essa “diplomacia do sorriso” será suficiente para manter a autonomia brasileira diante da maior potência do mundo.
Olhando para o futuro, o que se aguarda é uma relação de “cordialidade vigilante”. O governo brasileiro conseguiu abrir canais de diálogo em temas antes considerados “tabus”, com os diálogos mais recentes, mas o sucesso dessa estratégia dependerá da capacidade do Brasil de manter-se firme na exigência de transferência tecnológica e, também, reciprocidade comercial.































