O aumento dos casos de sarampo no continente americano tem gerado preocupação entre especialistas e autoridades de saúde, levantando questionamentos sobre o risco de um novo surto no Brasil. Apesar disso, o país ainda mantém seu status de “livre do sarampo”, segundo o certificado concedido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no ano passado. Entretanto, o alerta permanece ligado e a manutenção dessa conquista depende diretamente da adesão da população à vacinação. As informações são da Agência Brasil.
A chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marilda Siqueira, explica que para o Brasil perder essa certificação seria necessário que houvesse transmissão sustentada da doença por um ano, com o mesmo genótipo do vírus circulando.
“Para a gente perder essa recertificação, a gente tem que ter durante um ano, a partir do primeiro caso, cadeias de transmissão com o mesmo genótipo do vírus circulando”, afirma.
Casos confirmados e medidas de controle
Até o momento, o Ministério da Saúde confirmou três casos esporádicos da doença no Brasil, dois deles ocorreram no Rio de Janeiro, em bebês gêmeos que ainda não tinham idade suficiente para se vacinar. O terceiro caso foi registrado no Distrito Federal, em uma mulher adulta que, segundo investigações preliminares, teria sido infectada durante uma viagem ao exterior.
Para evitar a propagação do vírus, protocolos rígidos de vigilância são seguidos. Quando um caso é confirmado, todas as pessoas que tiveram contato com o doente são identificadas e monitoradas. Além disso, é realizada uma ação de bloqueio vacinal, reforçando a imunização nos locais frequentados pelo paciente, como escolas e locais de trabalho.
O sarampo é uma das doenças mais contagiosas do mundo. “O sarampo é causado por um dos vírus mais infecciosos que existem. Se alguém com sarampo chega em um ambiente com baixa cobertura vacinal, o vírus é transmitido para 17 pessoas, mais ou menos”, alerta Siqueira.
Situação do sarampo nas Américas
O risco de disseminação da doença aumenta quando outros países do continente registram surtos. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), em 2024, os casos confirmados de sarampo já superam os registrados em todo o ano passado. Os Estados Unidos registraram, até 24 de março, 301 casos, com duas mortes. O Canadá confirmou 173 casos, enquanto México e Argentina somam 22 e 11 casos, respectivamente. A Opas classifica o risco de propagação como “alto”.
No Brasil, surtos anteriores mostram como o vírus pode atravessar fronteiras rapidamente. Em 2017, um grande número de imigrantes venezuelanos chegou ao país, fugindo da crise humanitária no seu país. Como a cobertura vacinal no Brasil já estava baixa, a doença se espalhou rapidamente, resultando em um grande surto em 2018.
Importância da vacinação
A vacina contra o sarampo, desenvolvida na década de 1960, é a ferramenta mais eficaz para a prevenção da doença. No Brasil, a imunização é feita por meio da Tríplice Viral, que também protege contra caxumba e rubéola. A primeira dose é aplicada aos 12 meses de idade, e a segunda, aos 15 meses.
Em 2024, o Brasil atingiu a meta de 95% de cobertura vacinal para a primeira dose, mas menos de 80% das crianças receberam a segunda dose, o que preocupa especialistas. “A eficácia dessa vacina é de 93% a 95%, o que significa que 5% a 7% das pessoas não vão responder de forma adequada. Então a gente faz a segunda dose por dois motivos: para evitar essa falha primária e porque, com o passar do tempo, a proteção diminui naturalmente, e o reforço prolonga essa proteção”, esclarece Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
Hesitação vacinal e seus perigos
A hesitação vacinal é um dos maiores desafios enfrentados pelas autoridades de saúde. Durante a pandemia de covid-19, a taxa de vacinação caiu significativamente, aumentando o número de pessoas suscetíveis ao sarampo. “Durante a pandemia, caiu muito a cobertura vacinal. Se a gente teve 70% de cobertura, significa que 30% daquelas crianças não foram vacinadas no tempo correto. Se elas não foram vacinadas até agora, elas vão engrossar um grupo de suscetíveis”, alerta Cunha.
Segundo Luciana Phebo, chefe de Saúde do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil, a queda na cobertura vacinal global e a disseminação de informações falsas sobre imunização são fatores preocupantes. “O sarampo é frequentemente descrito como o melhor sinal de que a vacinação não vai bem em algum lugar, porque como ele é muito facilmente transmissível, qualquer perda na imunidade coletiva já permite que pessoas suscetíveis adoeçam”, explica.
Diante desse cenário, é essencial que pais e responsáveis garantam que as doses das vacinas estejam em dia. A imunização não protege apenas quem recebe a vacina, mas também impede a propagação da doença, protegendo toda a população.