Durante o seminário Diálogo Brasil-China sobre os Brics e Cooperação Global em Finanças, IA e Transição Verde, realizado nesta quinta-feira (3) no Rio de Janeiro, especialistas chineses destacaram a necessidade urgente de uma articulação mais profunda entre os países do Brics para avançar em duas áreas estratégicas: inteligência artificial (IA) e transição energética.
A China, uma das líderes globais nesses setores, tem proposto o fortalecimento de parcerias entre os países do Sul global como forma de enfrentar o domínio das grandes potências tecnológicas e energéticas. “Precisamos de cooperação concreta entre os Brics, com fundos, transferência de tecnologia e troca de ideias”, afirmou o professor Xiao Youdan, membro da Academia Chinesa de Ciências. Ele alertou para o fato de que países como Estados Unidos concentram o desenvolvimento da IA, enquanto países em desenvolvimento alimentam essas plataformas com seus dados, sem retornos proporcionais.
A declaração foi feita durante o evento promovido pelo Brics Policy Center da PUC-Rio em parceria com o Beijing Club for International Dialogue, como parte da programação da 17ª Cúpula do Brics, que ocorre nos dias 6 e 7 de julho, no Rio de Janeiro.
Desigualdades digitais e desafios tecnológicos
Zhao Hai, diretor do Instituto Nacional de Estratégia Global da Academia Chinesa de Ciências Sociais, reforçou que a ausência de cooperação tecnológica dentro do bloco pode acirrar ainda mais o abismo entre países ricos e pobres. “Se não nos unirmos, seremos empurrados para o papel de fornecedores de matérias-primas e consumidores de tecnologia. Precisamos agir rápido”, alertou.
A realidade desigual entre os países do bloco também foi destacada por Thelela Ngcetane-Vika, pesquisadora da África do Sul. Segundo ela, o debate sobre IA não pode ignorar o fato de que, em muitos lugares, falta acesso até mesmo à infraestrutura básica. “Se minha avó numa aldeia só tem um celular básico, estamos falando de uma exclusão digital severa. Precisamos pensar em IA dentro da realidade socioeconômica de cada país”, afirmou.
Transição energética: um desafio comum com realidades distintas
Outro tema central do seminário foi a transição energética, ou seja, a substituição gradual dos combustíveis fósseis por fontes renováveis e menos poluentes. A professora da PUC-Rio, Maria Elena Rodriguez, destacou que, apesar do potencial do grupo, os países do Brics têm perfis energéticos muito diversos.
Dados apresentados por ela mostram que o bloco é responsável por 74% do consumo global de carbono e 70% da produção. A China, por exemplo, ainda depende majoritariamente do carvão (61% da matriz), enquanto o Brasil lidera no uso de biomassa (31,7%) e a Etiópia apresenta índices expressivos no uso de biocombustíveis e resíduos (87,2%).
“É fundamental adotar uma abordagem que reconheça as particularidades históricas, econômicas e geopolíticas de cada membro. Só assim será possível construir uma transição energética socialmente justa, que leve em conta trabalhadores, comunidades e direitos territoriais”, defendeu Rodriguez.
Ela também cobrou mais do que financiamento: “Sem compartilhamento de tecnologia e conhecimento, estaremos reproduzindo os mesmos desequilíbrios globais dentro do próprio Brics.”
Cooperação como estratégia de desenvolvimento
Para Tang Xiaoyang, chefe do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Tsinghua, o fortalecimento da cooperação entre os países do Brics não deve excluir as nações desenvolvidas. “A China acredita no crescimento mútuo. Se apenas a China crescer, isso se torna insustentável. A prosperidade precisa ser compartilhada”, disse. Segundo ele, o governo chinês incentiva o comércio e os investimentos internacionais como parte de uma estratégia de desenvolvimento econômico — não como ajuda, mas como negócio.
Sob a presidência brasileira, a 17ª Cúpula do Brics conta com 11 membros permanentes: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia. Além disso, o grupo mantém diálogo com países-parceiros como Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Uganda e Vietnã.
Com temas centrais como inteligência artificial, transição verde e reconfiguração da ordem global, a edição de 2025 da cúpula marca um momento-chave para discutir o papel do Sul global no futuro da economia mundial.































