VideBula – Episódio32 – Entendendo o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD)
🎵 Vinheta do VideBula🎵
Raíssa: Olá, eu sou Raíssa Saraiva.
Pati: E eu sou Patrícia Serrão.
Raíssa: E esse é o VideBula.
Pati: Hoje vamos falar sobre o Transtorno Opositivo Desafiador – TOD.
Raíssa: Esse é mais um tema sugerido por ouvintes, cheio de preconceitos. Mas a gente já aprendeu que quanto mais informação, menos preconceito.
Pati: É particularmente importante para mim, porque uma amiguinha do meu filho tem TOD. Tenho acompanhado o esforço da mãe dela e da comunidade escolar.
🎵 Vinheta de transição🎵
Raíssa: Para nos ajudar a entender melhor o TOD, convidamos a psiquiatra Bruna Rodrigues, Tutora da Residência de Psiquiatria da Secretaria de Saúde do RJ.
Pati: Bruna, para começar, o que é o Transtorno Opositivo Desafiador?
Bruna: Então, o TOD, né, que é essa sigla para esse transtorno, ele é um diagnóstico psiquiátrico bastante complexo, por sinal. É um transtorno do comportamento que se caracteriza por um padrão persistente, de humor irritável, de um comportamento mais desafiador, de uma desobediência direcionada a figuras de autoridade, né? Essas figuras podem ser pais, professores, cuidadores, irmãos mais velhos. E são atitudes que vão muito além daquilo que a gente espera para a idade e que vão causando prejuízos significativos, tanto no convívio familiar, quanto nas relações sociais e também no ambiente escolar.
Raíssa: E como identificar e diagnosticar? Ele é genético?
Bruna: O diagnóstico, ele é um diagnóstico clínico, né? Quando a gente fala que o diagnóstico é clínico, ele é feito, né, assim, muito a partir de uma avaliação, né, normalmente do profissional ali, que é o psiquiatra da infância, né? E, às vezes, também até, enfim, por psicólogos mais capacitados. E ele é feito a partir de base em entrevistas, observações e relatos de pais e professores, assim. Então, por isso também é muito importante que o médico que vai fazer esse diagnóstico seja um médico que também consiga conversar com a escola, que também consiga fazer uma troca com os terapeutas, que consiga também, enfim, escutar os pais separadamente, atender essas crianças. Por isso que é um diagnóstico também demorado, né? E aí, sobre a questão da genética, assim, a psiquiatria não tem, enfim, alguma coisa que diz que tudo é somente genético, né? Tem um fator muito importante que é do ambiente, né? Que isso influencia demais os sintomas. Mas a gente sabe que assim como qualquer patologia, inclusive não psiquiátrica, quando a gente tem alguém na família, né? Por exemplo, diabetes, câncer, hipertensão. Tem uma história familiar positiva, é um fator de risco, então as chances podem aumentar, o que não significa que seja exclusivamente esse o único motivo.
Pati: Como diferenciar TOD de uma birra comum?
Bruna: E aí, né, a gente vai precisar pensar nesses sintomas que vão ser mais frequentes, né, como humor irritável, como comportamento desafiador, como a tendência às vezes de culpar os outros, como comportamento às vezes vingativo, uma desobediência frequente, que vão ter que estar presente por mais de 6 meses, e que vão ocorrer em múltiplos contextos, né? Eu acho que essa diferenciação ela é muito difícil assim, porque a gente vai entender que os sintomas presentes em qualquer patologia da infância, inclusive no TOD, são os sintomas às vezes que são frequentes em algum momento da vida, assim, de qualquer criança. Então, qualquer criança se algum momento ela vai desafiar o adulto, ela vai ser mais difícil para poder obedecer, vai ser mais difícil para poder cumprir regra, vai ficar um pouco mais irritado, vai perder a paciência. Então, prejuízo parte pedagógica, um prejuízo importante nas relações, passa a romper todas as relações, um prejuízo importante para família, né, assim relação familiar fica muito disfuncional, muito difícil. Então, precisa assim do tempo de observação, porque às vezes é o momento daquela criança tá assim, mas com o desenvolvimento ela consegue criar estratégias e ferramentas que isso começa a diminuir, aí você já não faz mais um diagnóstico. E aí, por isso que fica tão complexo, assim.
Raíssa: Crianças com TOD também apresentam outros diagnósticos?
Bruna: É muito comum, às vezes, a criança que tem um TOD, ele também, às vezes, tem um sintoma depressivo, assim, porque o TOD, por mais que a gente ache que não, mas Tem um sofrimento da criança e ela percebe que ela não consegue controlar as emoções, ela percebe que ela vai ali rompendo tudo, ela percebe que ela vai causando, enfim, as situações difíceis e isso pode levar, por exemplo, a um episódio depressivo. Ou ela pode ficar ansiosa com isso, né? Ou, por exemplo, um paciente que tem TEA, né? Ela percebe que ele não consegue se encaixar, que não consegue ter uma relação, que não consegue estar no social, ele fica ansioso com isso. Então, às vezes, o diagnóstico ele vem em conjunto, até por conta de um primeiro que vai causando um segundo de acordo também enfim, com sofrimento da criança. E aí por isso que é muito complexo o diagnóstico.
Pati: E como ajudar essas crianças?
Bruna: Para cada criança, a gente vai precisar tentar criar uma certa plano de cuidado individualizado, né? Que é o que a gente chama muito de projeto terapêutico singular, porque cada criança tá envolvida num contexto, né? Assim, que contexto que é esse, que escola que é essa, que pais que são esses, que família que é essa, onde mora, tudo isso envolve nesse nesse cuidado. Mas existe assim, via de regra, algumas, digamos assim, ferramentas gerais, né? Assim, então, tem que ser um cuidado multiprofissional, né? Tem que ser um cuidado em rede. Então a família tem que estar inserida, tem que estar implicada, a escola, profissionais de saúde e aí tem também algumas formas que a gente vai entendendo que é importante. Então, por exemplo, ter um reforço positivo nesse caso é muito mais importante do que ficar dizendo aquilo que faz de errado, melhorar a comunicação, ter uma comunicação mais clara, uma comunicação às vezes que seja de olho no olho, né? Assim, agachar ali para poder olhar de olho em olho com a criança, às vezes fazer acordos, os acordos que é, implicar essa criança, chama ela para participar, olha vamos fazer acordo, eu preciso que você consiga fazer isso, o que é que você consegue? Ah, eu consigo por exemplo arrumar minha cama, então olha vamos arrumar a cama aqui tantos tantos dias, implicar também a criança nos acordos para não ficar também uma coisa só que vem de cima para baixo, ter conversas frequentes com a escola e eu acho que muito importante que às vezes não acontece é que os pais também estejam em suas terapias individuais. Que a gente também romantiza às vezes a maternidade e a paternidade verdade, e são processos muito difíceis e às vezes também adoecedores, ainda mais quando a criança tá no momento mais difícil. Então, cada pai, cada mãe, cada família ali também estar dentro da sua terapia individual, isso faz toda a diferença nos casos também, na evolução, sabe? Enfim, do cuidado dessas crianças.
Raíssa: E a medicação?
Bruna: Então não tem uma medicação para o TOD, não tem uma medicação para a TDAH específica, não tem uma medicação para o transtorno bipolar. A gente medica normalmente os sintomas. Né? E os sintomas, eles tendem a diminuir um pouco, mas se eu não aprender, por exemplo, a lidar com as emoções, se eu não entender o contexto familiar, se eu não aprender a me controlar de alguma forma, poder falar o que eu sinto, a medicação não vai ser suficiente, ela vai perdendo efeito. Então não adianta só ir no psiquiatra se não tiver também o acompanhamento multiprofissional. A medicação perde o efeito assim rapidamente.
Pati: E no SUS, como funciona?
Bruna: A porta de entrada sempre pro SUS para qualquer dificuldade na infância, né, assim, da ordem psíquica, são as unidades básicas de saúde, as clínicas da família. Então, lá os médicos, né, da família, são capacitados para poder avaliar, se eles entenderem que essa avaliação precisa de um lugar específico, eles vão encaminhar ou vão chamar o CAPSI, que é o Centro de Atenção Psicossocial em Infância Juvenil para estar junto nesse caso. Então, ou eles vão encaminhar para a criança chegar no CAPSI, ou o CAPSI vai até a clínica da família para junto eles avaliarem.
Pati: E essa tendência equivocada de associar o TOD à psicopatia ou sociopatia?
Bruna: Eu acho que normalmente essa tendência acontece, porque a gente tende a olhar às vezes a criança com TOD, como uma criança que não tem empatia, né, que não tem sofrimento. E isso às vezes confunde com uma certa fantasia que a gente tem da psicopatia. Mas não é verdade. A criança adolescente com TOD, ele tem sofrimento. Inclusive, né, a própria irritação, né? A própria forma de saber com as coisas da vida dessa dessa natureza, com a irritação, enfim, com atos ali, enfim, de desobediência, é uma forma de sofrimento. E tem arrependimento, tem uma um certo reconhecimento de que não consegue controlar as emoções. Enquanto a psicopatia, né? Aí tipo pensando mais pela psiquiatria, é um transtorno mais da personalidade. Então a gente faz esse diagnóstico, enfim, um pouco mais depois, é mais difícil fazer na infância, normalmente tem uma forma de querer o sofrimento do outro, mas sem uma certa empatia. Então, é diferente, assim, é diferente.
Raíssa: Bruna, a gente sempre escuta falar de TOD em crianças. Mas e quando elas chegam à vida adulta?
Bruna: O TOD é um diagnóstico, na verdade, infanto-juvenil, assim, e cujo início vai acontecer na infância e na adolescência. Então, via de regra, não existe o TOD em adulto. Em adulto, a gente vai ter outras patologias, né? O que a gente sabe que pode acontecer é ter uma se a gente não cuida, né, assim como, enfim, qualquer patologia da criança, a gente não cuida do TOD ali na infância e na adolescência, vai ter consequência na vida adulta, né? Pode ter , enfim, eh sintomas que vão persistir, mas lá não vai fechar o diagnóstico TOD, aí fecha-se outros diagnósticos.
🎵 Vinheta de transição🎵
Pati: Quem mostra pra gente como tudo isso acontece na prática é a Tatiane Carvalho, mãe do Thiago, de 14 anos, que é diagnosticado com TOD. Com 2 aninhos, o Thiago já se destacava na creche. Tatiane, conta pra gente: como começaram a perceber os sinais?
Tatiane: Então assim, ele tinha algumas características que chamavam bem a atenção. Mas a coordenação da creche me mostrava que assim, ele tinha um comportamento mais mal educado, digamos assim, né? Mas assim, até então para mim era normal, mas de tanto a escola, a creche me chamava atenção, eu resolvi procurar uma psicóloga, porque aí eu falei assim: “Olha, alguma coisa ele deve ter de diferente”. Né? Então vamos tentar descobrir logo para eu poder já ir tratando, né? E aí ele passou a ser acompanhado pela psicóloga, isso foi dos 2 anos até uns 4 anos e meio, só com a psicóloga. E aí a gente foi observando, né? E aí esse comportamento já foi mudando, já começou ser mais autoritário, é é, umas birras mais diferentes, não era aquela birra de criança mimada, né? Porque ele não, é, se ele desse birra, não adiantava satisfazer a vontade dele que ele não parava, né? Ele só parava mesmo quando ele se sentia aconchegado num abraço, sabe? Se sentia aquela proteção. E aí com 4 anos, a médica, a psicóloga, ela fechou, meio que fechou, né? Um diagnóstico mais de hiperatividade. E aí a gente foi levando. Aí ele mudou com 6 anos ele foi para a educação infantil. Aí sim, ele realmente mostrou as características do TOD, né?
Raíssa: E como isso se manifestava no dia a dia dele?
Tatiane: Tudo era motivo de briga. Se ele quisesse fazer uma coisa e a professora dissesse não, o mundo acabava para ele, né? E aí as briras começaram mais, é e aí a escola sempre tratando como um menino mimado. Mas eu percebia que não era, né? Porque é, não adiantava satisfazer a vontade dele e não adiantava fazer o embate com ele, né? A gente tinha que deixar ele extravasar para poder depois acalentar.
Tinha as crises, né? Ele batia, ele brigava, ele não queria ficar em sala de aula, ele nunca quis fazer as tarefas, né? Mas tinha uma professora que Deus mandou para a gente, que foi ensinou, alfabetizou o Tiago. Então ele com 6 anos, ele já tinha uma excelente leitura, uma excelente interpretação de texto, fazia os cálculos matemáticos assim de cabeça e aí ele não fazia os deveres dele, fazia, ele ensinava os coleguinhas dele, né? E aí a gente conseguiu fazer com que esse comportamento, né? Que seria para os outros visto como uma criança mal educada, a gente conseguiu reverter isso e tirar dele o melhor, né? Que era a sabedoria que ele tinha, a paciência que ele tinha de auxiliar os colegas. ele até hoje tem isso, né?
Pati: E quando buscaram o psiquiatra?
Tatiane: Foi com 6 anos a psicóloga foi e fechou o diagnóstico de TOD e encaminhou para o psiquiatra, né? E aí o psiquiatra, ele, no primeiro momento ele não fechou, ele deu uma sugestiva, né, de diagnóstico e aí a gente acompanhou até os 8 anos de idade para poder fechar realmente o TOD e o TDAH.
Pati: A mudança de escola na metade do ensino fundamental virou a rotina do Thiago de cabeça pra baixo. A nova escola era muito maior, as turmas eram mais cheias. A estrutura não estava preparada para crianças como ele. Então coube à família preencher essa função.
Tatiane: Eu sabia que para o tratamento, para as terapias funcionarem, eu precisava do apoio de todos, né? Então, uma das primeiras atividades que a terapeuta passou foi o quadro de rotinas.
E aí esse quadro de rotinas, eu até fiz uma postagem é acho que foi no Facebook que para poder comunicar a família inteira, que onde eu fosse esse quadro ia conosco. E era assim, é final de semana eu ia muito para casa de uma tia, levava meu quadrinho de rotina com o Thiago, sabe? E aí assim, foi fácil, a família acabou me apoiando muito né?
Raíssa: Como funciona o tratamento dele? Vocês usam medicação?
Tatiane: O tratamento ele é diário, ele não tem um, teve início, mas ele não terá um fim, né? E assim, o que mais importa no tratamento é a gente buscar a rede de apoio, né? É a família, é a escola, é a equipe médica, né? A equipe psicopedagógica que acompanha. Então, assim, é todo um trabalho, né?
Uma coisa que é que esse é meio tabu ainda, é a questão da medicação. né?
Mas assim, a gente tem que entender que o remédio ele é necessário, ele que vai auxiliar o tratamento. O remédio não é a solução para o comportamento da criança com TOD, né? O remédio, ele é um, ele ajuda o tratamento. O que, é, o que comanda o tratamento são as terapias, né? É, multifuncionais. Mas o remédio, ele auxilia a manter o equilíbrio da criança, porque aí ele vai ajustar, né, o humor, o comportamento, vai controlar a ansiedade. Então, é necessário.
Pati: A parte do tratamento que o Thiago não abre mão é justamente a rotina de atividades. Conta pra gente como é o seu dia, Thiago?
Thiago: Tenho agenda cheia com terapias, aula particulares, academia, karatê, competições, sala de recursos da escola. As atividades ajudam no tratamento, não gosto de ficar em casa sem fazer nada.
Raíssa: E como você se sente falando sobre o TOD? Alguma dica para quem foi diagnosticado agora?
Thiago: Tenho facilidade de falar sobre o assunto com outras pessoas, me sinto bem, não tenho vergonha, falo com meus professores e amigos mais próximos.
Pati: E você, Tatiane? Algum conselho para os outros pais?
Tatiane: É a gente saber que como pais, a gente precisa ceder em vários momentos, que a gente precisa retrair um pouquinho e chamar assim para realidade, né? E é só isso, é se dedicar com muito amor e não ter medo, não ter vergonha que seu filho tenha comportamentos diferentes.
🎵 Vinheta de transição🎵
Raíssa: O VideBula é uma produção original da Radioagência Nacional, serviço público de mídia da EBC.
Pati: Idealizado e apresentado por mim, Patrícia Serrão, e por Raíssa Saraiva. Edição de Bia Arcoverde.
Raíssa: Operação em Brasília Jaime Batista. .Áudio e sonoplastia no Rio: Toni Godoy.
Pati: E se você tem dúvidas ou sugestões, mande um e-mail para videbula@ebc.com.br. A gente adora ouvir vocês!
Raíssa: Você pode ouvir outros podcasts e séries da Radioagência Nacional no nosso site, nos tocadores de áudio e com interpretação em Libras no YouTube. Se gostou, compartilhe e ajude a informação a chegar a mais pessoas.
Pati: Para mais informações, VideBula! Até o próximo episódio!
🎵 Vinheta de Encerramento 🎵






























