Estudos revelam que as apostas online, as bets, são a principal causa do endividamento familiar. Aconteceu com Rogério, que há mais de um ano se mantém longe do vício:
“As apostas pareciam inofensivas, até que começaram a comprometer o meu orçamento, dificultar o pagamento das minhas contas, comecei a comprometer a minha renda e, desde então, passou a controlar a minha vida de uma forma negativa”.
Já Luiz Carlos diz que o vício pode fazer com que a pessoa chegue a apostar todo o salário.
“Quem ganha um salário vai jogar de R$ 10 em R$ 10. Quem ganha 20 mil vai jogar de R$ 1 mil em R$ 1 mil. É isso. É simples assim. Então não importa o valor, o dinheiro. Eu joguei tudo o que tinha”.
Um relatório recente do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) concluiu que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024. Quase metade deles se endividou.
▶️ Esta reportagem é parte da série especial sobre saúde mental e apostas online do radiojornalismo da Rádio Nacional, publicada diariamente, de 14 a 18 de setembro, pela Radioagência Nacional. Ouça e baixe aqui.
Segundo Tiago Braga, diretor do IBICT, as apostas online são apresentadas muitas vezes como um investimento, mas, na verdade, são um gasto. O risco aumenta com a falta de controle.
“Quanto mais você aposta ou quanto mais você gasta recursos com a aposta menos você terá recursos para o seu futuro. E isso a gente está falando de questões do cotidiano, como aluguel, comida, vestuário, educação”.
Segundo o psiquiatra forense Hewdy Lobo, crianças e adolescentes chegam a apostar a mesada ou o dinheiro do lanche. O vício deixa sinais.
“Este jovem está deixando de estudar como fazia antes, deixando de dormir como fazia antes, deixando de se alimentar como fazia antes, deixando de relacionar como fazia antes para estar investindo mais tempo, emoção e prazer nos jogos, a ponto de, em algumas situações, deixar de comprar lanche para apostar, ainda sendo menor e isso sendo proibido”.
Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, destaca que a Ludopatia ocorre junto com outros transtornos mentais.
“E tem um ponto que é a comorbidade com depressão e ansiedade, que é altíssima. A literatura documenta taxas bem preocupantes de ideação suicida associadas ao endividamento por jogo”.
Aposta com dinheiro do estudo
Apostar a mesada, o salário e até mesmo o dinheiro destinado à educação, como mostra a pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), em que 34% dos entrevistados afirmaram que precisariam parar de gastar com apostas para conseguir iniciar uma graduação em 2026.
Entre aqueles que já estão no ensino superior, 14% relataram ter atrasado as mensalidades ou trancado o curso por causa dos gastos com bets.
Para o diretor geral da ABMES, Paulo Chanan, os dados são um alerta importante, mas que não se pode generalizar o comportamento dos jovens.
“Não podemos generalizar dizendo que todo jovem está diante dessa escolha, mas podemos afirmar que, para uma parcela relevante deles, o dinheiro destinado às apostas já está interferindo diretamente em decisões relacionadas à educação. E isso preocupa muito a ABMES, porque cria uma barreira adicional ao acesso e à permanência no ensino superior”.
A pesquisa mostra ainda que 34% afirmaram ter deixado de investir em cursos, idiomas ou outras formas de aprendizado por causa dos gastos com apostas. Outro dado: 33% deixaram de investir em academia ou atividades físicas.
Segundo Paulo Chanan, as instituições de ensino podem contribuir com informação, prevenção, orientação, acolhimento e encaminhamento adequado quando necessário.
“O que os resultados mostram é a necessidade de olhar para esse fenômeno de forma mais ampla, porque as apostas podem afetar diferentes aspectos da vida dos jovens. É justamente por isso que prevenção e conscientização são tão importantes. As instituições de educação superior têm um papel importante, especialmente na conscientização, na prevenção, na orientação e no acolhimento dos estudantes. Esse é um tema que passa a fazer parte de uma realidade social que também chega ao ambiente acadêmico”.
Paulo Chanan frisa que as instituições não podem ser responsabilizadas sozinhas pelo enfrentamento do problema. Para ele, deve ser uma atuação conjunta que envolva educação, saúde, comportamento, regulação e políticas públicas.
Esse estudo da ABMES não avaliou indicadores de desempenho acadêmico nem de saúde mental.
Na próxima reportagem, a gente fala como as leis brasileiras podem proteger tanto crianças e adolescentes quanto adultos nesse mundo das apostas online.
Créditos
Reportagem: Ana Lúcia Caldas
Edição: Paula de Castro
Produção: Luciene Cruz
Sonoplastia: Egberty Martins
Edição web: Sumaia Villela
































