Metade das mulheres brasileiras vive em jornada dupla ou tripla a partir dos 18 anos, ou seja, acumulam estudos, trabalho remunerado e trabalho doméstico ou de cuidados com filhos, irmãos, pais ou outros parentes. Apenas uma minoria, 2%, está sem fazer, pelo menos, uma dessas atividades. As informações estão no estudo Juventudes e a Política de Cuidados, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Estudos
Segundo o levantamento, as pessoas jovens vivenciam uma sobreposição de jornadas, que gera vulnerabilidade social própria dessa fase da vida. O acúmulo de atividades representa um desafio para que, principalmente, as mulheres permaneçam nos estudos.
Mais de um quarto das jovens estudantes com mais de 18 anos também cuidam de alguém no domicílio ou na família: um contingente de cerca de um 1,2 milhão de mulheres.
Na avaliação do coordenador da Agenda Jovem Fiocruz, André Sobrinho, o estudo aponta que a grande maioria dos jovens está ocupada no mercado de trabalho, muitas vezes de forma simultânea com os estudos, enquanto também precisam dar conta do cuidado de outras pessoas, especialmente no caso das mulheres.
Algumas mulheres estudantes vão além e fazem tripla jornada: trabalham, estudam e cuidam. A taxa é de 9% entre 18 e 24 anos e de 18% entre 25 e 29 anos.
É o caso da estudante Eduarda Maia, de 24 anos. Apesar de fazer trabalhos esporádicos, ela diz que fica muito cansada com a rotina da casa e dos estudos:
“Eu acabo deixando de lado o lazer e o estudo, principalmente, para, por exemplo, quando eu tenho um momento livre, descansar. Eu priorizo muito mais o meu sono do que, por exemplo, fazer uma refeição de qualidade ou sair. E isso é muito numa tentativa de, se eu dormir hoje o dia inteiro, amanhã eu vou estar descansada para, por exemplo, estudar. Mas é mentira, porque amanhã eu não vou ter tempo de estudar por causa da rotina cansativa.”
Clara Tauil, de 25 anos, reclama da dificuldade em conciliar estudos, trabalho e vida social:
“Muitas vezes, eu abdico de momentos de lazer. Eu também abro mão da minha academia, ou eu teria que acordar muito mais cedo para ir, o que seria muito inviável por causa da faculdade. E, de noite, também não dá, porque eu também, muitas vezes, acabo deixando de estudar, porque fico muito sobrecarregada, muito cansada. É um esgotamento mental e físico também muito grande, e, muitas vezes, a socialização fica de fora.”
Questão racial
A pesquisa mostra, ainda, que a questão racial também gera desigualdades na distribuição do trabalho de cuidados na família: jovens mulheres negras dedicam o dobro de horas ao trabalho de cuidados, comparativamente a homens brancos e negros.
O estudo analisou os microdados da Pnad, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua anual, do IBGE, no ano de referência de 2022.






























