Pensador dos territórios: os 100 anos de Milton Santos

Nascido em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, no dia 3 de maio de 1926,  Milton Santos se tornou um dos principais nomes da geografia no mundo.

Professor em universidades no Brasil e no exterior, construiu uma obra marcada pelo olhar crítico sobre o espaço e as desigualdades. Para o pesquisador Albino Rubim, o pensamento de Milton Santos ultrapassa os limites da academia.

A atuação dele nunca é uma atuação descolada de uma conexão com a sociedade, com as questões da sociedade. Essa preocupação de entender a sociedade e intervir na sociedade. Eu acho que hoje, muitas das experiências que acontecem no Brasil, muitas das políticas que são políticas territorializadas, devem muito a essa noção de Milton, porque ele sempre fez essa conexão entre a academia e a vida na sociedade, a articulação na sociedade.  E, claro, ele é uma figura que tem uma experiência internacional gigantesca, viveu em vários países,  atuou em muitas universidades, foi condecorado com o título de Doutor Honoris Causa,  em infinidade de universidades, o que mostra o reconhecimento da obra dele. Ele tem uma dimensão multi interdisciplinar, revolucionária para a geografia, ele criou a geografia nova. É muito importante para a política, muito importante para a comunicação, é muito importante para a cultura”.

Filho de professores, neto de escravos-forros, Milton Santos construiu uma trajetória que ajuda a explicar a força do pensamento intelectual.  A partir da Bahia, ganhou o mundo e se tornou uma das vozes mais respeitadas da geografia.

O escritor Valdomiro Santos Júnior destaca essa caminhada no livro Milton Santos, da coleção Gente da Bahia.

“Para ele, o território e o homem se interagem mutuamente, estabelecendo padrões e comportamentos que contribuem para explicar a realidade social. Isso não é válido apenas para o Brasil. Esse é um dos aspectos que faz com que a obra de Milton Santos se destaque no mundo inteiro: a  interação entre território e homem e homem e território, um influenciando na história do outro, é que tornou o pensamento de Milton, academicamente falando, original”.

Milton Santos publicou mais de 40 livros ao longo da carreira. Entre os principais temas abordados estão o território, a globalização e as desigualdades sociais, conceitos que seguem presentes nos debates atuais, como reforça a professora e pesquisadora Patrícia Ponte.

“O meu entendimento do grande legado, quando a fala da obra do professor Milton Santos, é a atualidade dessa obra. Ele falava que a geografia é uma ciência, ela tem que ser uma ciência do presente, ela tem que estar conectada com o que está acontecendo. E ele fez essa geografia do presente, mas eu acho que até mesmo pela qualidade desse pensamento único do professor, ela se mostra hoje,  mesmo 25 anos depois do seu falecimento, extremamente atual para a gente entender o mundo, que eu acho que é a grande contribuição dele.  Além dessa atualidade, sempre foi uma obra muito marcada por uma preocupação social. Milton Santos sempre foi um intelectual que prezava pela justiça social, e essa justiça se materializava no espaço, no território.  Ele fez essa ciência engajada. Então, a partir dos subsídios teóricos, dos conceitos que ele criou e que ele trabalhava, especialmente o território, do uso do território a partir da globalização e de como a globalização estava aprofundando as desigualdades sócio-territoriais. Essa visão que ele tinha do que viria a acontecer a partir do aprofundamento da globalização e de uma economia neoliberal,  hoje a gente vê que é muito atual. O pensamento e a preocupação dele, o aumento das desigualdades sociais, territoriais, ele apontava os agentes, ele deixou caminhos para a gente refletir sobre o está acontecendo hoje”.

Por isso, obra de Milton Santos segue em diálogo com as novas gerações de pesquisadores e leitores. Para o escritor Itamar Vieira Júnior, geógrafo de formação, esse legado também é marcado por uma experiência pessoal.

“O Milton Santos é essa grande referência. Me acompanhou na minha vida universitária, minha vida intelectual como pensador, ainda tem uma importância, um peso grande. Tudo o que eu aprendi sobre o mundo,  sobre território, sobre a relação do homem, da sociedade, com o mundo onde vive… Eu tive aí o privilégio de estudar, de ter professores que traziam o pensamento do Milton Santos para a sala de aula e influenciaram decisivamente minha vida. Eu ainda tenho uma história muito particular com a família dele, porque eu fui o primeiro bolsista, fui contemplado com uma bolsa que só existe graças à família Santos, e se chama Bolsa Milton Santos, e hoje já foi institucionalizada e, ao  longo de 20 anos, já beneficiou muitos, muitos estudantes e eu fui o primeiro, então eu carrego essa marca aí comigo”.